Colecção de histórias infantis, para encantar os mais pequenos.

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Mai 08

Certo dia, a Mata da Tijuca amanhece repleta de cartazes anunciando para Sábado da Aleluia uma grande festa no céu. As aves da redondeza ficaram tão empolgadas com a notícia que, na véspera do baile, a Lagoa dos Bichos já não tinha mais lugar para tanta ave para tomar banho e ordenar a plumagem.
Perto dali, acocorado numa pedra à beira do lago, o Sapo-Cururu assistia o assanhamento das aves, remoendo-se de curiosidades. E pergunta a uma Garça ao seu lado:
- Dona Garça, por que a passarada está tão animada?
A ave branca, do alto de suas pernas, reclina a cabeça e responde:
- Você não leu os cartazes? Vamos para a uma festança no céu.
O Sapo incha o papo:
- Então, é isso?
- Não vale o sacrifício?
- Sim, claro – engole espuma o anfíbio, enciumado.
Antes de levantar vôo, a garça ainda gazea:
- Engraçadinho, se outro tipo de bicho pudesse ir, levaria você a tiracolo.
O sapo revira os olhos e arremata:
- Não se acanhe, dona Garça, caso tenha vontade de ir, darei meu jeito. Dizem que quem possui padrinho cristão jamais morre pagão.
Meio desapontado, o Sapo fica ali um longo tempo cogitando melhor maneira de ir à grande festa. Por fim, imagina que o Urubu seria a melhor condução.
- Coac! Coac! Breq-qué-queeep... O bicho voa alto, é forte e não engole sapo... pelo menos vivo, eu acho.
Entusiasmado com a idéia, o Sapo-Cururu sai pela floresta à procura do Urubu. Depois de saltar muito pela região encontra a ave empoleirada num tronco seco de Angico, aquecendo os pés ao sol da manhã.
- Boa tarde, amigo Urubu - cumprimenta o Sapo.
O Urubu, com cara de papa-defuntos e pouca conversa, levanta as pálpebras, mede o sapo de cima a baixo e resmunga:
- Huuuummmm!...
- O amigo vai à festa no céu?
- Vou.
- Arre!... Tão elegante assim, vestido nesta bem engomada casaca preta, deve ser o artista que vai animar a festança com sua viola, certo?
- Certo, anfíbio. Mas, não espere convite para coaxar numa folia de aves! Você lá, nem para fazer segunda voz!
O Sapo, pela arrogância do Urubu, prefere nem tocar no assunto da carona. E conclui:
- Leve minhas lembranças aos nobres convidados.
O Urubu, depois de uma boa risada:
- Caso pudesse voar, seria uma boa oportunidade para me ver tocar de graça, não é mesmo?
- Trem bom assim, a gente não deve perder, mas fica para outra oportunidade – lamenta o sapo.
O Urubu abre o bico num bocejo de pouco caso.
- Na volta, me procura que eu conto tudo a você, está bem? Agora, me dê licença que eu preciso voar um pouco para exercitar os músculos.
- Claro. Claro - concorda o Sapo já imaginando como pegar uma boa carona até o céu.
Em pouco tempo o Urubu levanta vôo e começa a rodar lá nas alturas, quase encostado nas nuvens. O sapo então corre para dentro da casa do violeiro e salta para dentro da sua viola, encostada na parede do quarto. Astuto como todo anfíbio fica ali quietinho, esperando o momento da partida para a festa.
No dia seguinte, mal o sol anunciava a manhã, o Urubu acorda cheio de ânimo. Espreguiça para despertar o restinho de sono e sai meio desengonçado para cozinha para devorar um pedaço de carne velha, guardado na geladeira sem motor. Em seguida, agarra a viola e parte para o grande baile, levando o Sapo de carona. Sem saber, é claro.
Depois de longas horas de vôo, o Urubu chega ao salão de festas do céu, onde foi recebido com alegria pelos companheiros.
- Espero ter feito boa viagem, mestre Urubu? - quis saber o Papagaio-de-Papo-Amarelo.
- Ótima – responde o músico enquanto deixava o instrumento sobre um montinho de nuvens e sai a tagarelar com os amigos.
O Sapo, ao ver o músico entretido com os outros pássaros, deixa a viola e esconde-se atrás de outra nuvenzinha que enfeitava o salão. Sem ser visto, fica ali até o baile começar. Quando ele viu que a pista de dança já estava lotada de dançarinos, deixa o esconderijo e mistura-se aos alados na maior empolgação.
No princípio, ave nenhuma desconfia de nada, achando ser um pássaro fantasiado de sapo, até que a Seriema, naquele fogo todo, tromba com o anfíbio e percebe que era um sapo de verdade. Escandalosa, como todas as aves da família cariama cristata, ela pipita em alto e bom som:
-Tem sapo entre a gente.
Na mesma hora um rebuliço frenético rompe na pista. O Urubu deixa de tocar. As aves param de dançar e começam a formar um circulo em volta do Sapo; cada uma olhando para a outra e para o intruso ao mesmo tempo, como quem não sabe se está acordado, dormindo ou sonhando.
A Perdiz, indignada, pia:
- Oh!... Oh!... que cara-de-pau!
A Gaivota, inquieta, pipila:
- Com que passaporte e com visto de quem o senhor entrou nesta festa?
A Cegonha, cheia de não-me-toques, glotera:
- Tem cabimento, bicho gosmento desse jeito no meio da gente!
Mas o Sapo, entorpecido pela animação do folguedo, continuava dançando e coaxava cada vez mais alto:
- Coac! Coaaaaaaaaac! Breq-qué-queeeeepppppp.
O Urubu, com a barbela vermelha de raiva, crocita:
- Quieta aí, bicho dos infernos!
O anfíbio, ao ver a grande ave na sua frente, pára de pular. Cobre a cabeça de medo e começa a soluçar.
O Gavião balança a cabeça, enfurecido.
- Que tal destrinchar esse pançudo, jogar pimentinha em cima e degustá-lo aqui mesmo?
Vários pássaros, ao ouvir a sugestão do falconídeo, batem asas aplaudindo a idéia. A Saracura, ao perceber que o clima esquentava entre os alados, procura acalmar os mais exaltados.
- Não é melhor deixar de lado esse trololó!... Não que eu defenda esse mequetrefe aqui, mas estamos no céu é para divertir, não é? Já que ele veio, sabemos lá como, que fique e se divirta também.
E, virando-se para o músico:
- Compadre Urubu, considere meu pedido. Continue a música para a felicidade geral da nação alada.
Depois de um rápido bate-bico entre a passarada, a maioria decidiu que o baile deveria continuar, mesmo com a presença de um estranho. O Urubu volta a tocar viola e enche o salão com o som das paradas. O Sapo, revigorado do susto, também cai na farra e dança o resto da noite no meio das aves. No final da festa, o Urubu anuncia uma surpresa:
- Aves de meu reino, para fechar com chave de ouro nossa festa uma bateria de fogos de artifício vai pipocar no céu.
Logo em seguinda, estoura no infinito uma roda de fogos que espalha centelhas de luzes coloridas para todos os lados, tão incandescentes que quase transformam a madrugada em dia. O Sapo, em vez de curtir o espetáculo de fogos, aproveita a distração dos pássaros para garantir a carona de volta. Sai de fininho e, outra vez, fica arranchado no bojo da viola, que descansava em um canto do palco.
Ao cessar o foguetório, o Urubu despede-se das aves, atrela a viola entre os dedos dos pés e, mesmo cansado, se precipita céu abaixo. Tudo ia bem quando, lá para muito mais da metade do caminho, já meio lerdo de tanto sono, quase tromba num avião teco-teco.
- Urubu azarento, sai do meu caminho – berra o aviador, assustado com imprudência do pássaro.
Roxo de vergonha, o Urubu pede desculpas ao piloto e desvia o quanto pode da aeronave. Azar para o Sapo. Com o incidente, ele rebateu tanto dentro da viola que o abutre descobriu tudo.
- Com mil diabos!... Passeando às minhas custas!... Pois fique sabendo que minha viola não é condução nem sou motorista de enxerido nenhum!
- Por favor, eu explico.
O Urubu, sem dó nem piedade, emborca a viola, gritando:
- Ahhhhh!... Guarde as explicações para São Pedro. Ele pode até engolir um sapo, eu não! Cai fora, peste, porque quem planta vento, colhe tempestade!
O Sapo imediatamente foi jogado para fora da viola. Em queda livre ele até fazia promessas:
- Coac! Coac! Breq-qué-quep!... Bléu... Bléu... Bléu... Desta vez, se escapar, nunca mais irei foliar no céu.
Ao ver tanta pedra lá embaixo, ainda arrisca até um pedido:


Pedrinhas do meu coração,
Arredam!... Arredam!... que preciso cair no fofo.
Vivo se continuar a Deus peço perdão
E só na lagoa farei alvoroço.

Mal acaba de declamar o versinho cai esborrachado no chão. Não morre, mas fica com o corpo mais achatado e a pele mais verrugosa do que antes. Ao mirar-se na água da lagoa leva o maior susto com o novo uniforme.
- Ufa!... Agora só vou a uma festa se convidado. Nada de xeretagem... cada sapo no seu brejo!
E salta para a água, cantando:
- Coaaaaaaac! Coac! Breeeeeeq-qué-quep!

publicado por JAD às 13:53

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